[66] Ausência de árvores em Dom Avelar e Bairro da Paz
Desarborização prejudica a vida de quem vive nas periferias de Salvador
Moradores de Dom Avelar e do Bairro da Paz apontam a falta de árvores e o aumento da temperatura como consequência do crescimento de empreendimentos imobiliários na região

Sombra para descanso, o clima mais arejado e o conforto térmico, proporcionado pela proximidade e variedade das árvores, não fazem mais parte do cotidiano de muitos moradores que vivem nas periferias de Salvador. Esse contato com a natureza deu lugar ao calor excessivo dentro e fora das casas, causados pela baixa cobertura arbórea.
No bairro de Dom Avelar, onde é possível encontrar ruas inteiras sem sequer uma árvore, o tatuador Alisson William, 28, observa que, ao longo dos últimos dez anos, a região em que vive tem perdido significativamente sua arborização. Segundo ele, a expansão de condomínios residenciais contribuiu para o aumento da sensação térmica enfrentada pelos moradores do bairro.
“Em 10 anos foi retirado uma quantidade grande de árvores que deu origem a uma empresa de contêineres, na região onde a nova rodoviária se encontra. Há cerca de dois anos surgiram dois novos condomínios, provocando a supressão de árvores”.
Outro ponto destacado por ele foi o aumento no número de empresas na região, cujo processo de implantação gerou dois problemas para quem vive naquele local ou precisa passar por ali.
“No Porto Seco [bairro adjacente] tem um corredor de empresas onde, além das árvores retiradas, a calçada foi tomada pelos muros das empresas. Simplesmente, não existe mais calçada para os pedestres. O bairro era bem mais arejado graças às árvores. Agora, com tantos prédios, o ambiente ficou mais quente, além da perda de sombras ao longo do caminho. Houve valorização dos imóveis e chegada de novos moradores, e é nítida a melhora no comércio local, mas a temperatura subiu drasticamente”, destacou o também Designer Gráfico.
Segundo dados do Censo 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados no ano passado, Salvador é a segunda capital brasileira menos arborizada do Brasil, onde cerca de 1,5 milhão de pessoas vivem em ruas onde não há sequer uma árvore, em sua maioria concentradas em bairros considerados periféricos.


Para Ana Carine, bióloga e representante do Observatório do Racismo Ambiental, fundado em Salvador, ao se discutir a questão das árvores é preciso também falar em saúde pública, qualidade de vida, adaptação climática e racismo ambiental.
“A ausência das árvores vai interferir nas nossas vidas, na nossa saúde, no nosso descanso, na nossa mobilidade, e até na permanência das pessoas nesses espaços públicos de dia. E existe algo que é simbólico nisso tudo. Enquanto algumas áreas da cidade conseguem criar barreiras naturais contra o calor, outras permanecem ainda muito expostas aos impactos das mudanças climáticas. Além de discutir as árvores, é [preciso] discutir a saúde pública, a qualidade de vida, a adaptação climática e também discutir o racismo ambiental”, ressalta.
MUDANÇAS NA ROTINA
A rotina de uso de equipamentos coletivos no Bairro da Paz, como praças públicas, tem ganhado novos contornos, sobretudo, nos últimos tempos. Isso é o que percebe o estudante da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Allan Borges, 24. As Praças do Popular e da Base que, apesar de ter toda uma estrutura, é desarborizada, o que interfere diretamente no uso durante o dia.
“Aqui não tem muitas árvores, aliás, tem duas praças que frequentava bastante. Ainda tem uma quantidade legal de pessoas que ainda frequentam, que é a Praça do Popular e a Praça Principal, que é a da Base. Essas duas não tem árvores lá, e isso é interessante porque são praças, tem bancos, tem um parquinho para crianças brincarem, mas não tem nenhum tipo de sombreamento natural, para proteger as crianças do sol”, observa.
O jovem conta que nota diferenças entre o bairro em que vive e o que estuda, que é o bairro arborizado, considerado de classe média alta, chamado Ondina. Ele destaca ainda que a temperatura no Bairro da Paz é muito quente, mesmo quando chove.
“A temperatura aqui é bem quente, principalmente nos dias ensolarados. Até quando chove também às vezes fica um mormaço muito quente, então, mesmo quando tem uma chuva, o calor ainda permanece muito forte”, afirma.
Segundo dados do MapBiomas, divulgados em 2024, a capital baiana é a segunda com mais áreas verdes do país, com cerca de 26% do seu território com cobertura vegetal – o termo se refere a todo tipo de planta, inclusive relva e grama, por exemplo. Uma outra questão relacionada a isso é justamente o fato dessa porção de cobertura vegetal estar concentrada em alguns pontos específicos, como parques e as ilhas dos Frades e de Maré, que não ajuda na redução da temperatura em bairros como os citados na reportagem.
Confira abaixo um vídeo que destaca a perda de arborização no Bairro da Paz entre 1984 e 2022:
Reportagem de Jackson Souza e Bruna Rocha
Edição de Rosana Silva
Fotografia de Bruna Rocha
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