[65] Mães acompanham rotina digital dos filhos
Com os riscos encontrados no ambiente digital, mães aumentam monitoramento aos filhos nas redes sociais
Mães de crianças e adolescentes adotam estratégias para limitar o tempo de tela e acompanhar de perto os conteúdos consumidos e as interações dos filhos na rede
A agente de portaria Carla de Jesus, 47, mãe solo de Adriely Noemy Rocha, 17, e de Nicolas Rocha, 11, conta que por ter uma jornada de trabalho intensa, buscou formas de acompanhar a rotina digital dos filhos. “O celular de Nicolas, eu sempre olho. Vejo o que ele está assistindo, presto atenção nos vídeos e nas falas. Tem muita coisa errada circulando, principalmente no Kwai”, afirma.
Com a filha mais velha, a moradora do Nordeste de Amaralina conta que a abordagem mudou ao longo do tempo. “Eu já olhei muito o celular de Adriely, já briguei com ela. Hoje, prefiro conversar. Ela me diz: ‘mãe, você tem que confiar em mim’, e respondo que confio, mas explico como a internet funciona, alerto sobre pessoas que podem se aproximar com más intenções”, relata.
Para Allan Mendes, psicólogo especializado no atendimento a crianças e adolescentes em situação de violência e vulnerabilidade, a necessidade de pertencimento típica da adolescência pode aumentar a exposição a riscos também no ambiente digital. Allan destaca:
“O jovem busca compreender sua identidade e seu papel no mundo. Nessa busca por pertencimento, pode adotar comportamentos de risco. Isso também se reflete na forma como se comporta online.”
O psicólogo afirma que diferentemente do passado, os riscos hoje não estão limitados ao espaço físico.“Nas redes, não dá para simplesmente ‘ir embora’. As pressões acompanham o jovem em todos os lugares, e as más influências não estão restritas a um círculo próximo, podem vir de qualquer parte do mundo”, afirma.
Diante da relevância que as Redes Sociais têm como espaço de socialização, Carla tem buscado construir uma relação de confiança com os filhos, sobretudo, com Adriely. Hoje, a mãe conta com o apoio da filha mais velha para orientar o irmão mais novo. Segundo ela, o uso de jogos no celular de Nicolas exige atenção constante, já que o menino demonstra interesse frequente por esse tipo de conteúdo.
“Quando vejo alguma coisa suspeita, principalmente no Kwai, vou conferir e peço para Adriely olhar também que jogo ele está jogando”, explica. Outro ponto de tensão é o uso do aparelho na escola. Nicolas insiste em levar o celular, mas Carla mantém a proibição. “Eu já disse que escola é lugar de estudar, não de celular. Essa semana ele insistiu muito, mas falei que não vai levar”, afirma.

A perspectiva de Carla, não é única. Para a técnica de enfermagem Cleide Raiane Ferreira, 36, mãe solo de Nauan Henrique Ferreira, 14, o uso excessivo das redes pode gerar problemas com a socialização e os estudos. Além disso, Raiane está sempre alerta para a dinâmica do filho com os jogos online.
“Acredito que ele fique no celular em torno de 6 a 7 horas por dia. Os horários são entre 14h e 19h (não que seja sempre entre esses horários, devido ao fim de semana ser livre). Temos a regra de que ele pode usar o celular sempre após a lição de casa, estudo para avaliação e os afazeres de casa”.
A moradora de Cosme de Farias observa a desenvoltura e naturalidade com que os jovens navegam pelas plataformas.
“Os adolescentes são bem espertos quanto a isso, sabem manusear diversas plataformas, muitos grupos de WhatsApp, figurinhas. Tem a fase da ‘curiosidade’, uns mais pra frente, outros mais pacatos, porém começam as trocas de fotos de coleguinhas com certos tipos de comentários.”
“Eu acredito que o uso excessivo do celular nas redes pode gerar desatenção nos estudos, mas no caso do meu filho, os maiores problemas são os jogos online. Apesar de eu impor limites, Nauan peca no excesso. Como trabalho fora, ele fica muito tempo sozinho em casa, tendo liberdade para usar o aparelho. É uma situação complicada, pois preciso me comunicar com ele para saber como está durante minha ausência. Então não posso tirar o celular para manter um controle mais regrado sobre os horários de uso. Mas, quando estou presente, controlo isso”, conclui.
O psicólogo ressalta a importância do controle parental aliado ao diálogo e às experiências fora das telas.
“Existem ferramentas que restringem conteúdos, mas o diálogo e a convivência fora das telas são essenciais. Passeios, brincadeiras, assistir a filmes juntos, tudo isso fortalece o vínculo e amplia os estímulos além do digital”.
Segundo ele, o excesso de tempo nas telas pode levar ao isolamento social, à menor tolerância à frustração e à dificuldade em manter interações presenciais.“Os estímulos rápidos e constantes da internet tornam difícil competir com a vida fora das telas, que exige mais paciência e tolerância”, concluiu o especialista.
O RISCO DAS REDES
A preocupação de Carla e Raiane não é à toa. Os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que, em 2024, cerca de 167,5 milhões de pessoas com 10 anos ou mais possuíam celular para uso pessoal no Brasil, o equivalente a 88,9% da população nessa faixa etária. As informações fazem parte do módulo “Acesso à Internet e à televisão e posse de telefone móvel celular para uso pessoal”, da PNAD Contínua, divulgado em julho de 2025.

No mesmo período da pesquisa, o acesso à internet alcançou 93,6% dos domicílios do país (74,9 milhões de lares), com destaque para o Nordeste, que registrou o maior crescimento entre 2023 e 2024, com aumento de 2,2 pontos percentuais.
Quando se observa o recorte etário, os dados reforçam os desafios enfrentados por famílias como a de Carla e a de Raiane. Uma pesquisa divulgada em fevereiro deste ano pela Unico, rede líder em verificação de identidade, em parceria com a Ipsos, empresa especializada em pesquisa de mercado e opinião pública, aponta que a falta de supervisão pode triplicar o risco de exposição de crianças e adolescentes a situações de perigo no ambiente digital.
O levantamento revela que 30% dos jovens entre 10 e 17 anos afirmam ter mentido a idade para acessar plataformas digitais no último ano. Além disso, 57% relatam já ter sido expostos a conteúdos inadequados nesse período. Entre esses, 35% dizem ter tido contato com conteúdos de violência extrema, enquanto 21% afirmam ter acessado conteúdo adulto ou até mesmo sites de relacionamento.
Reportagem de Bruna Rocha
Edição de Rosana Silva
Fotografia de Bruna Rocha
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