[64] Via Sacra nas periferias
Entre fé e arte, jovens encenam a Via Sacra em Águas Claras
Apresentações comunitárias aproximam público da história bíblica e revelam talentos artístico
Pelo segundo ano consecutivo, o estudante de enfermagem Alejandro Oliveira, 21, interpreta Jesus Cristo, em uma encenação organizada por integrantes da Paróquia Santa Clara, no bairro de Águas Claras, em Salvador. Para ele, a experiência artística do teatro de rua aproxima os jovens da história bíblica.
“A Paixão de Cristo nas ruas é acessível e gratuita. Todos podem participar desse momento que traz reflexão para diversos públicos”, reflete.
Veterano da peça, Alejandro já participou de cinco edições da Via Sacra. Antes de assumir o personagem principal, em 2025, interpretou papéis como o do “bom ladrão” na cruz e soldado por duas vezes. Ser o protagonista é uma experiência que descreve como difícil de colocar em palavras.
“Não tenho adjetivos para poder expressar de tão incrível que é representá-lo. É um papel que tem que ser feito com seriedade e com aprofundamento. O momento é único e indubitavelmente inesquecível”, diz o intérprete de Cristo.
Sobre a reação do público, ele diz receber admiração e carinho, mas ressalta que o foco não deve estar no intérprete.
“Como representante desse papel, jamais devo me sentir o centro das atenções, mas uma pessoa que mostra como foi o caminho das estações até o calvário, com todos envolvidos na encenação”.
DO ATO À ATUAÇÃO
Moradora do bairro Canabrava atualmente, a advogada e servidora pública Railana Almeida dos Santos, 27, também participou da Via Sacra ao interpretar Maria, mãe de Jesus, em um grupo da Paróquia Nossa Senhora do Carmo, localizada em Vila Mar, Lauro de Freitas.
Para ela, conhecer a história bíblica ajudou a construir uma atuação mais segura e conectada com a proposta da encenação.
“Quando você conhece mais profundamente o contexto, consegue interpretar e representar de forma mais fácil. O mais difícil foi a atuação em si, pois não é possível passar toda aquela carga emocional se não tiver minimamente uma compreensão e um entendimento acerca da importância daquele momento na fé. E acredito, sim, que consegui transparecer aqueles sentimentos, porque já era algo que eu vivenciava”, afirma.
Segundo Railana, a encenação nas ruas torna a experiência mais intensa para quem assiste.“Vivenciando a Via Sacra, a pessoa fica muito mais suscetível de perceber como ela dialoga com a sua realidade, no sentido de que, assim como Jesus teve a sua caminhada até o calvário, com sofrimentos e quedas, o jovem da periferia também tem esses momentos, mas pode se manter, apesar das dificuldades”, diz.
Já o ator Cleiton Gomes, 29, nascido em São Paulo, e atualmente morador de Dias D’avila, diz que o interesse pela atuação começou justamente assistindo às encenações da Paixão de Cristo quando era mais novo, no bairro de Cajazeiras.
Apesar da vontade, ele conta que a timidez e a fobia social inicialmente o faziam duvidar da própria capacidade. “Eu pensava que não tinha como fazer algo com um público tão grande. Dava um certo medo”, recorda.
O desejo, no entanto, falou mais alto, e ele passou a integrar a equipe ligada à Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem, Dias D'Ávila. Participar da Paixão de Cristo foi um marco importante em sua trajetória pessoal e profissional. Mesmo sem ter uma religião definida, ele afirma acreditar um pouco em diferentes doutrinas.
“A gente leva a peça pelos bairros mais próximos e distantes do centro. Aí o público movido pela curiosidade ou pela fé vai assistir. A última vez que a gente fez foram quase cinco mil pessoas vidradas assistindo a cada momento, sentindo principalmente, porque a partir do momento que a pessoa não sente, ela não consegue ser tocada”, conta.
Segundo Cleiton, o público tem se diversificado ao longo dos anos. “Normalmente, quando se fala de questões religiosas, a gente vê muito o público adulto. Só que, com o passar dos anos, isso vem mudando. Os jovens querem mais. Mesmo quando não entendem totalmente o que está acontecendo, eles são muito movidos pela curiosidade, ou por aquela sementinha de fé que é plantada, independente de qual seja. E a Via Sacra ajuda muito nisso, porque eles começam a enxergar a vida de uma forma diferente”, diz.
OUTRAS FORMAS DE ATUAÇÃO
Além da encenação, a realização da Via Sacra exige uma preparação que começa semanas antes e envolve diferentes frentes de trabalho dentro da comunidade. A confecção dos figurinos é uma das etapas centrais. Muitas peças são reaproveitadas de anos anteriores, mas passam por ajustes, reformas e adaptações, ganhando novos detalhes e adaptações, na maioria das vezes, feitas pelos próprios jovens envolvidos na organização.
Também fazem parte desse processo a definição do percurso, a montagem de cenários e a estrutura de som e iluminação, para garantir que o público acompanhe cada momento da apresentação. Esse conjunto de atividades gera uma mobilização coletiva, que vai além da encenação e movimenta a dinâmica cultural e social.
“É um momento muito belo porque convida jovens, idosos, crianças e adultos a demonstrar essa expressão e esse traço artístico que mistura o sagrado, a arte e a ciência, de forma em que eleva o coração humano através da oração e transcende a mente ao belo. E isso vai encantando as nossas periferias com cenários, vestes e tintas, muitos vão pensar na estrutura e cortar madeira, por exemplo, tudo isso para que possamos meditar o caminho das cruzes, enriquecendo assim toda a convivência de comunidade”, pontua o padre Caio Santos, da Paróquia Divino Espírito Santo, localizada no Jardim das Margaridas.
As celebrações acontecem, principalmente, às sextas-feiras e ganham mais intensidade durante a Quaresma, período de cerca de 40 dias que antecede a Páscoa. Nesse tempo, a vivência religiosa é marcada por oração, reflexão, penitência e abstinência, reunindo comunidades em torno de um momento de tradição e participação coletiva.
“E aqui nós percebemos algo bonito, de que temos muitos artistas em nossas periferias, seja cantando, seja atuando, preparando o roteiro ou confeccionando os materiais, o que nos faz ver e perceber que há um potencial muito grande nessas localidades”, finaliza o padre.
Reportagem de Vagner Ferreira
Edição de Cleber Arruda e Rosana Silva
Fotografia de arquivo pessoal
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