[60] A herança da Sociedade 10 de Julho
Como a Sociedade 10 de Julho tem trazido cidadania e bem-estar aos moradores de Pernambués desde 1963
Ao longo das décadas, a associação de moradores criou uma rede de voluntários, parceiros, que trabalham para o desenvolvimento do bairro
Desde 1963, a Sociedade Beneficente 10 de Julho, localizada na Avenida Hilda, em Pernambués, bairro popular de Salvador, é sempre lembrada pela inquietação dos seus fundadores - os irmãos Manuel Pinto (Nezinho), Hilda Santos e demais moradores - pela busca dos direitos necessários à uma vida digna para a comunidade. Uma dessas lembranças é contada pela dona de casa Crispiniana Silva, 76. Na década de 70, ela, o esposo e três filhos pequenos vieram morar no terreno comprado, em uma das ruas transversais à Avenida Hilda. Ali construíram a primeira casa de taipa, em um local sem saneamento, luz e água.

“Do ano de 1970 a 1972, andava todos os dias para buscar água na fonte. Para iluminar a casa, usamos o candeeiro, poucas casas tinham energia e poste de energia. Soube que na sede fazia um cadastramento para pedir luz e água. Com essa ajuda, tivemos água encanada já em 1973. A luz chegou antes, em 1971; primeiro, com os postes na rua; depois, nas nossas casas. Seu Nezinho já faleceu, mas sou muito grata pelo trabalho realizado para todos nós”, ressaltou.
O atual presidente da Sociedade Beneficente 10 de Julho, Marivaldo Júnior, 49, mais conhecido como Júnior de Nezinho, que faz parte da terceira geração da família, conta que, nas décadas de 60 e 70, a chegada de novos moradores e a falta de infraestrutura fizeram com que seu avô criasse, junto com esses moradores, a primeira associação do bairro para ir em busca de direitos.
“Meu avô colocou a pastinha embaixo do braço e foi andando de Pernambués até a Barroquinha, onde toda cúpula política se reunia à época. Ele entrou nesse meio, levando a sociedade junto, e dizia ‘vamos bater na porta dos políticos para ver se trazemos benefícios para nossa comunidade’. Uma das primeiras conquistas dele como líder comunitário foi trazer a água e eletrificação para o bairro, principalmente, para a rua principal, a Thomaz Gonzaga. Os primeiros postes foram colocados na rua principal, depois isso foi se estendendo para as ruas transversais”.

Considerado um quilombo urbano, Pernambués - assim como os 21 bairros adjacentes - descendem do chamado quilombo do Cabula. Uma área extensa de mata, com água e terra fértil, que abrigou os rebelados no período da escravidão. Distante do centro da cidade, a modernização demorou a chegar nesta região. A professora Janice Nicolin, em sua tese de doutorado “Kipovi Cabuleiro: um tom da memória do Cabula”, cita o papel de algumas lideranças responsáveis por buscar direitos e cidadania para as populações que viviam nesta localidade.
“A comunidade do Pernambués recebe todo equipamento da urbanização junto com a Avenida Silveira Martins na década de 60. Esta comunidade tem uma histórica liderança política de grande influência na política de Salvador: Manuel Pinto, Seu Nezinho, irmão de Mãe Hilda. [Ambos] criaram elos com a sociedade global para expansão social dos Pernambués, primeira comunidade a obter, na década de 60, os sinais da modernidade, junto com o trecho inicial do Cabula até o 19º B.C”, conta.

Os irmãos também doaram para a Prefeitura de Salvador, terrenos das suas propriedades, que ficavam à frente e ao lado da associação, onde foram construídos um posto de saúde; atualmente chamado de Centro de Saúde Edson Teixeira e Unidade de Pronto atendimento, e a Escola Municipal Epaminondas Berbert de Castro; que resulta da primeira escola comunitária para crianças criada pela associação. A contribuição de Hilda Santos para o bairro é tamanha que seu nome batiza a avenida onde se encontra a Sociedade Beneficente 10 de Julho.
A SOLIDARIEDADE COMO HERANÇA
Pernambués é um dos bairros mais negros de Salvador e é um dos mais populosos, com 52.564 habitantes, segundo o Censo de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Com o passar das décadas, o contexto social mudou e ao acompanhar essas transformações, a diretoria da associação tem estado próxima da comunidade para entender as novas necessidades.

“Meu avô dizia que, às vezes, não conseguimos dar o que a pessoa quer, mas só o fato de oferecer um abraço, uma escuta atenta é muito importante, porque ganhamos respeito”, explica Júnior. E foi por meio da escuta e da observação que a diretoria da associação - composta por 5 moradores que trabalham de forma voluntária - teve a ideia de cuidar da saúde, do bem estar físico e emocional dos moradores.
“Recebemos muitas pessoas, entre elas, idosas, aposentadas que, muitas vezes, ficam ociosas em suas casas. Por isso, criamos um grupo de dança e um grupo de condicionamento físico”, complementa.
Outra atividade que teve muita procura foi o pilates. A proposta das aulas e também da fisioterapia acabaram com a necessidade dos moradores saírem em busca desses atendimentos fora do bairro.
“Fazer dois dias de pilates, por semana, é cerca de R$200, R$180. Muitos não têm condições de pagar. Colocamos essa modalidade na associação. O paciente vinha para o ortopedista, que recomendava fisioterapia ou pilates, mas como uma idosa de 70, 75 anos vai sair, pegar um ônibus e se deslocar para fazer pilates em outros locais? Olha a dificuldade dessa pessoa. Por isso, também colocamos a fisioterapia gratuitamente aqui”, pontua Júnior.
Os relatos de melhora da saúde já são comentados pelas pessoas atendidas. A moradora e artesã Alrizonete Fernandes, 53, comentou sobre os resultados do tratamento. “Já estou aqui há dois meses e sinto a minha minha mão muito melhor. Soube desse serviço por uma amiga. A fisioterapia não é barata e aqui não pago nada. O atendimento é excelente”, conta.
Já o pedreiro Rosival Ferreira, 50, contou sobre o benefício de cuidar da saúde perto de casa. “Já moro no bairro há dez anos, e me falaram sobre esse atendimento e vim conferir. Cheguei, fiz minha ficha e já fui atendido. É bom para mim, porque estou perto de casa, não preciso gastar dinheiro de transporte, não interfere no meu trabalho, e é só alegria”, comemorou.

Se alguns moradores procuram por atendimento, outros contribuem com a associação de forma voluntária, a exemplo da fisioterapeuta Tatiana Santos, 25. Ela conta da satisfação em tratar dos pacientes no bairro onde reside.
“Desde a graduação tinha a vontade de realizar o trabalho voluntário e ajudar minha comunidade. A fisioterapia é um tratamento que muitas pessoas não podem pagar, dificultando ou prolongando a recuperação de uma lesão. Eu me sinto muito bem em ajudar, sobretudo, quando os pacientes relatam que estão melhor, estão sem dor. Acredito que quanto mais pessoas puderem ajudar em trabalhos sociais será mais valioso”, ressalta.

A Sociedade 10 de Julho disponibiliza atendimentos voltados para o cuidado da saúde, com ortopedista, nutricionista, clínico, fisioterapeuta, cardiologista, dermatologista e psicólogo, para adultos e crianças. Também realiza marcações de exames. O espaço oferece aulas de karatê para as crianças e adolescentes.. Também são oferecidos cursos profissionalizantes. Durante o mês, a associação realiza cerca de 500 atendimentos. Todos os atendimentos e atividades são gratuitas.
REDE DE COLABORAÇÃO E OS DESAFIOS
Atualmente, a associação tem 230 famílias cadastradas, com cerca de 700 pessoas em situação de vulnerabilidade social, a maior parte composta por mulheres e mães solteiras. Durante a semana, integrantes da diretoria atendem às demandas dos moradores do bairro, na medida das possibilidades, como explica o diretor financeiro Onildo da Hora, 50.
“Existe uma procura grande por comprovante de moradia no bairro, que é algo fundamental para uma série de procedimentos, como tirar novos documentos, ir em busca de benefícios sociais. Aqui, apenas nós fazemos isso, mas nem sempre conseguimos resolver o problema do morador”, disse.
Para sustentar as atividades, eventos são realizados, como o bazar solidário, onde ocorrem vendas de produtos oriundos das doações. O aluguel do espaço para celebrações também é usado para custear as despesas e as ações realizadas, além da contribuição dos doadores.
Segundo Júnior, não é fácil manter um trabalho social. Entre 2018 e 2020, a associação fechou. Mas, com a reorganização da área jurídica, as atividades foram retomadas. “Reabrimos na pandemia, porque as pessoas precisavam de ajuda, por conta da perda de emprego, muitas empresas do comércio fecharam. De 2020 até agora, ela voltou a crescer e a ter reconhecimento da comunidade”. Para o presidente, algumas das leis que regulam as organizações do Terceiro Setor não contribuem para que estes cumpram efetivamente seus objetivos.
“Existem instituições com mais de 10, 15, 20 anos que se mantêm com muita dificuldade. Faltam leis que facilitem a convivência da gente. Existem custos, assim, poderíamos ter uma lei que facilitasse com descontos de IPTU, isenção de pagamento de luz ou uma tarifa social para luz, água”, completou.
A sociedade tem uma rede solidária com cerca de 56 doadores, entre pessoas físicas e jurídicas, que apoiam com recursos financeiros, distribuição de alimentos, oferta de vagas de emprego, roupas, objetos, entre outros, mas as portas permanecem abertas para novos doadores, parceiros e voluntários. Durante o ano, com esse apoio, a associação também cumpre o calendário de datas festivas, como Páscoa, Dia das Crianças e Natal, com distribuição de alimentos e brinquedos.
Na 5° edição Natal Solidários de 2025, as doações e o trabalho realizado pelos voluntários arrecadaram 980 brinquedos, que foram distribuídos para as crianças. “Temos uma uma rede em que todos vão se somando e, nessa soma, onde cada um contribui como pode, conseguimos, por exemplo, distribuir cerca de 450 cestas básicas no final do ano passado”.
“Às vezes as pessoas querem doar, mas, primeiro precisam comprovar como o trabalho é realizado, elas têm receio, realmente. Mas, o povo brasileiro, nosso povo baiano é solícito e acolhedor. Quando você se propõe a fazer um trabalho sério, com certeza, Deus abençoa. Só tenho a agradecer a todas as pessoas que colaboram com a associação”, conclui Júnior.
Para doação, trabalho voluntário, pode-se acessar o site da associação ou pelo número de telefone (71) 98741-3593.






Reportagem de Rosana Silva
Edição de Cleber Arruda
Fotografias de Bruna Rocha
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