[59] Memórias marcam os festejos do Natal
Natal nas periferias: entre memória familiar e reorganização do cotidiano
Decoração doméstica mobiliza lembranças, luto e convivência em bairros populares
Em dezembro, a decoração natalina nos bairros populares assume um papel que vai além da ornamentação. Pisca-piscas reaproveitados, árvores improvisadas e enfeites feitos à mão marcam a passagem do ano e ajudam a organizar o tempo doméstico, mesmo em contextos de restrições financeiras.
No bairro da Boca do Rio, em Salvador, a radiologista Luciana Souza, 31, mantém o hábito de decorar a casa como forma de preservar memórias familiares. O interesse pela data vem da infância e está ligado à lembrança da mãe, que fazia questão de manter a tradição.
“Mesmo não gostando tanto do Natal, minha mãe fazia esforço para deixar tudo bonito, para ver a gente feliz, para me ver feliz e ver meus irmãos felizes. Isso é algo que me faz continuar, que me impulsiona a fazer ainda melhor”, relata.
Segundo a psicóloga Gabriela Aiyê, práticas como preparar a casa para o Natal podem ter impacto direto na saúde emocional.
“Durante o Natal, atitudes como enfeitar a casa e preparar o ambiente para a data podem, sim, gerar impactos na saúde emocional das pessoas. Esses gestos ajudam a criar sensações de acolhimento, pertencimento e continuidade, especialmente em contextos onde a rotina costuma ser marcada por dificuldades”, explica.
Na casa de Luciana, a decoração passou a concentrar os encontros familiares. “Percebo que minha mãe se sente bem. Ela gosta das luzes, da árvore, tirar fotos perto da decoração. Toda a família se reúne. Isso me deixa feliz, realizada. Acho que a magia do Natal é isso mesmo”, diz. A chegada da filha reforçou ainda mais esse vínculo afetivo, transformando a decoração em um momento de convivência e construção de memórias.






A psicóloga observa, no entanto, que a data também pode provocar sentimentos ambíguos. “Por ser fortemente associada à convivência familiar, o Natal pode despertar tristeza, solidão ou saudade, sobretudo em pessoas que vivenciaram vínculos familiares rompidos ou instáveis. Nesse sentido, os enfeites na vizinhança podem chegar como algo desagradável”, afirma.
Para preservar o bem-estar, a psicóloga orienta que se respeitem os próprios limites e se evitem cobranças sobre como o Natal ‘deveria’ ser.
Essa ambivalência também aparece na experiência da dona de casa Raimunda Ferreira Bonfim, 53, moradora do bairro de Cosme de Farias. Para ela, o Natal reúne lembranças de encontros familiares e de perdas.

Com o tempo, Dona Raimunda retomou o hábito de enfeitar a casa. Parte do processo envolveu a preservação de objetos antigos, guardados como relíquias familiares.
“Tenho coisas bem antigas, como os gorros de Papai Noel, a guirlanda e o presépio”, conta Dona Raimunda.
Os itens passaram a funcionar como referências familiares e religiosas dentro do espaço doméstico.“Entendi que minha mãe estava com Deus e gostava de ver minha casa arrumada”, completa. Voltar a decorar tornou-se um gesto de homenagem e continuidade, mostrando que o Natal também pode ser um espaço de ressignificação da dor e de fortalecimento da fé”.
Para Gabriela, ampliar o conceito de família também é fundamental nesse período. “Para aquelas pessoas que optam por não passar a data com a família de origem, é importante entender que família pode ser construída de diferentes formas: com amigos, companheiro(a), animais de estimação ou a partir do acolhimento recebido em vínculos afetivos”, explica. O ponto central, segundo ela, é que esse espaço seja marcado por cuidado, respeito e afeto.



Reportagem de Estefanie Santos
Edição de Cleber Arruda e Rosana Silva
Fotografia de Naiade Bianchi e Bruna Rocha
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