[58] Mulheres 30+ e o acesso ao ensino superior
Aos 30+, mulheres das periferias de Salvador escrevem seus caminhos na universidade
Entre maternidade, trabalho e com desafios ligados à saúde, Eli Odara, e Cristiane de Jesus, constroem suas trajetórias acadêmicas depois dos 30 anos

Em muitas periferias brasileiras, entrar na universidade depois dos 30 ainda soa como uma meta distante, mas para algumas mulheres, tornou-se realidade. São trajetórias que desafiam estatísticas e conciliam maternidade, trabalho formal, tarefas domésticas e problemas de saúde. Assim, mulheres periféricas de Salvador constroem suas jornadas acadêmicas fora do tempo considerado “ideal”.
Cristiane de Jesus, 49, faz parte desse grupo. Com os cabelos ruivos que chamam atenção e um sorriso que parece abrir caminho, ela carrega um olhar único e sonhos acadêmicos que burlam limitações físicas e etárias. Cris, como prefere ser chamada, hoje é estudante de Psicologia da UFBA (Universidade Federal da Bahia). Porém, sua trajetória começou muito antes: ela superou desafios ligados à saúde e, com apoio da família, decidiu que era preciso voltar a estudar.
Aos 15 anos, Cris recebeu o diagnóstico de glaucoma severo e a notícia de que perderia gradativamente a visão. Ela conta que saiu de Salvador e “rodou o país” em busca de cura. Nesse tempo, conheceu Jurandir de Oliveira, 57, com quem mantém relação há 31 anos e juntos tiveram dois filhos.
Com a chegada dos pequenos, os sonhos de retomar os estudos, interrompidos ainda no ensino fundamental, foram guardados para assumir outras responsabilidades.
Em 2011, quando os filhos chegaram à adolescência e o diagnóstico oftalmológico só piorava, Cris decidiu desengavetar o desejo de estudar. “Cada vez que ia ao médico o diagnóstico era sempre pior, e nisso sentia o desejo de voltar a estudar, tinha parado meus estudos na oitava série. Então, fui em busca de concluir meus estudos e fiz o Enem [Exame Nacional do Ensino Médio] pela primeira vez, meu filho caçula tinha 16 anos”, conta.
Ela aplicou a nota para diferentes universidades e conquistou vagas na Universidade Federal da Paraíba e na do Rio Grande do Sul.
“Fiquei muito feliz, não importava o curso, estava radiante por ter passado numa federal. Meu esposo, meus pais, meu tio, meus familiares contavam para todo mundo”, recorda.
Após dois anos cursando Engenharia na Paraíba, Cris precisou voltar a Salvador por motivos familiares, mas não desistiu do sonho de ingressar no ensino superior. Fez novamente o Enem, conseguiu uma bolsa pelo Sisu (Sistema de Seleção Unificada) para Serviço Social e, no dia da matrícula, descobriu que também havia sido aprovada em Psicologia, curso que desejava desde o início. Desde então, segue como graduanda da UFBA.
“Entrei na UFBA aos 36 anos, em 2018, e ainda enxergava um pouco. No fim do ano, perdi a visão completamente. Meu filho me perguntou se eu iria parar a minha rotina. Eu escolhi seguir. A gente encontra dificuldades, mas sigo firme, porque meu desejo é me formar”.
Hoje, a estudante de psicologia faz parte do crescente grupo de universitários com mais de 30 anos no ensino superior. Segundo o Censo da Educação Superior de 2024, divulgado pelo MEC (Ministério da Educação) com dados do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), é a primeira vez desde 1980 que o país ultrapassa 10 milhões de estudantes. Em 45 anos de estatísticas, o número representa aumento de 2,5% em relação a 2023.
Os dados também revelam o crescimento da presença de pessoas com deficiência. Em 2014, eram mais de 33 mil estudantes, cerca de 0,4% do total. Em 2024, o número passou de 95 mil, aproximadamente 0,9%.
Ainda segundo o MEC, em 2024, havia 10 mil estudantes afrodescendentes (pretos e pardos) com 30 anos ou mais matriculados no ensino superior. Desse total, 7,5 mil eram mulheres, sendo 1,1 mil na Bahia.
Em 2025, dados do ministério enviados ao Entre Becos indicam que, no primeiro semestre do ano, havia 7,9 mil estudantes afrodescendentes com 30 anos ou mais no ensino superior. Desse total, mais de 5,5 mil eram mulheres, 838 delas no território baiano.

DESARQUIVANDO SONHOS
Se Cris encontrou nos estudos uma nova forma de enxergar o mundo, a quilombola Elizete Silva, batizada pela espiritualmente de Eli Odara, 60, descobriu na educação um caminho para levar sua comunidade ao espaço acadêmico e, antes disso, resgatar a si mesma.
Moradora do bairro da Mata Escura, mas natural de São Félix no recôncavo baiano, Eli Odara tem um percurso acadêmico robusto; Formou-se primeiro em Gestão de Instituições de Ensino Fundamental e Médio, pela Unifacs (Universidade de Salvador); depois concluiu a Licenciatura em Teatro, pela UFBA. Soma ainda um MBA Executivo em Recursos Humanos pelo Instituto de Ensino Superior de Salvador (ESAMC), e formação técnica em Contabilidade. Agora, mira no mestrado e está concluindo a Licenciatura em Educação Quilombola pela Uneb (Universidade do Estado da Bahia).
Contudo, na juventude, Eli Odara lidou com a pressão familiar para trabalhar ao invés de estudar, porque “naquela época ter o ensino fundamental já era o suficiente”.
“Logo que terminei o ensino fundamental, minha mãe dizia que ia arrumar um trabalho para mim. Ser empregada de supermercado era o ‘trabalho dos sonhos’. Ela conseguiu uma entrevista no Paes Mendonça e até alisou meu cabelo, o que eu já não queria”, conta.
Eli ainda recorda que, na entrevista, ouviu do gerente que seria impossível estudar e trabalhar ao mesmo tempo. “Ele disse: ‘o trabalho ou o estudo’. Então eu respondi que seria o estudo e saí da sala”.
Ao atravessar a porta, a briga com a mãe foi imediata. Mesmo assim, Eli manteve o pé firme, afirmando que trabalharia, mas sem abrir mão dos estudos. Foi assim que aprendeu a trançar cabelos, fez teatro, dançou e, entre uma atividade e outra, não largou os livros até concluir o curso técnico em Contabilidade. “Trabalhei em muitos escritórios, vários mesmo. Até que surgiu uma vaga numa escola e aquela escola acabou sendo, de fato, a minha escola”, recorda.
Ali, entre inquietações e amizades que ampliaram seu horizonte, Eli encontrou o acesso que tanto lhe negaram.
“Eu me perguntava como a educação poderia acontecer para mim, já que tudo ao meu redor dizia o contrário. Mas aconteceu porque conheci pessoas libertárias, que falavam de liberdade, que pensavam diferente. Com elas descobri caminhos que eu nem sabia que existiam”.
Foi também nesse ambiente que Eli recebeu uma proposta decisiva: a gestora da instituição se ofereceu para custear sua faculdade. “Fiz minha primeira graduação depois de ter filhos. Trabalhava de manhã na escola, à tarde em outro serviço e, à noite, ia para a Unifacs. Nesse período, cuidava dos meus três filhos”, lembra.
Durante o percurso acadêmico, Eli notou o que os números confirmam, a presença de mulheres quilombolas na universidade ainda é mínima. Em 2024, segundo o Censo da Educação Superior, apenas 1,8 mil quilombolas ingressaram em universidades federais por meio de ações afirmativas.
“Estar na academia me permite trazer a realidade da minha comunidade. E eu reconheço que tenho privilégios que os meus não têm. Lá não há água, não há estrada, não há transporte e, recentemente, tiraram até a escola”, reflete.
Para ela, a pouca oferta de escolas nas comunidades quilombolas é um dos principais fatores que mantém o baixo número de quilombolas no ensino superior.

MAIS DIFÍCIL QUE A ENTRADA É A PERMANÊNCIA
Para Cris e Eli Odara, a evasão universitária nunca foi uma opção. Focadas em permanecer na universidade, ambas tiveram de criar estratégias para superar obstáculos que atravessam renda, raça, gênero, deficiência e até questões de segurança pública. Elas relatam vivenciar um ambiente ainda pouco acolhedor a mulheres mais velhas e pessoas com deficiência.
Eli chegou ao ensino superior consciente dos problemas estruturais e raciais que atravessam a universidade.“Quando você vem de uma educação pública falha, tudo dentro e fora dali tende a desvalorizar os conhecimentos que você já carrega”, afirma.
“Muita gente mais velha domina saberes tradicionais, tem décadas de experiência profissional, entende de agricultura, de cuidado, de oralidade, de cultura, de liderança. Mas a universidade tradicional não valoriza esses saberes”, conta.
Além disso, segundo Eli, tanto na primeira quanto na segunda graduação, o estranhamento do corpo acadêmico com a presença dela era evidente. A solidão acadêmica também marcou sua trajetória.
“Nunca gostei de sentar no fundo. Sempre fui participativa. Ainda assim, tive muitos momentos solitários de estudo, com medo de não conseguir entregar um trabalho pela falta de base ou de tempo para ler todo o material. Isso me levou a crises de ansiedade. Precisei silenciar meu interior para seguir”, recorda.
Cris viveu algo semelhante. No início da graduação, era a única mulher mais velha da turma. “Quando entrei, só tinha eu de mais idade”, lembra.
“Hoje, tenho colegas na mesma faixa etária, mas percebo o aumento do preconceito. Atualmente, por conta do etarismo, alguns jovens não querem fazer atividades comigo. Existem muitos grupos fechados e, além da idade, por também ser deficiente, enfrento ainda mais barreiras”, desabafa Cristiane.
“Durante uma disciplina, a professora perguntava quem poderia me acolher em uma atividade em grupo e a sala inteira ficava em silêncio. Eu não enxergo com os olhos, mas sinto a energia das pessoas. Fiquei me perguntando como estudantes de Psicologia conseguem agir de forma tão pouco humana. Que profissionais serão esses no futuro?”, lamentou a estudante.
Cris reitera enfrentar não apenas o etarismo, mas também o capacitismo.”Já ouvi muitos burburinhos de que eu não deveria estar ali, que deveria ficar em casa, cuidar da casa ou dos filhos. ‘Pra que deficiente quer estudar?’, é o que muitos pensam. É difícil, mas sigo em frente. Afinal, a universidade é para todos, pelo menos é assim que eu entendo”, enfatizou.
Para a antropóloga Gabriela Barcelar, as vivências de Eli e Cris refletem a interseccionalidade que marca a trajetória de mulheres negras no acesso e na permanência na universidade. A doutoranda em antropologia social pela USP (Universidade de São Paulo) destaca que indicadores sociais empurram mulheres negras, desde cedo, para o papel de cuidadoras.
“Cria-se uma série de barreiras socioeconômicas e culturais para que esse povo acesse uma educação de qualidade”, afirma. “E mesmo quando conseguem entrar, não há garantia de permanência. Além disso, surgem novas barreiras que impedem que essas pessoas sejam valorizadas tanto no mercado de trabalho quanto no próprio meio acadêmico”.

TEMPO REI
Cris e Eli iluminam seus próprios caminhos e inspiram outras pessoas a acreditar que o ambiente acadêmico também lhes pertence. Na terceira graduação, Eli reflete sobre a ideia de “tempo ideal” para entrar na universidade.
“Talvez o problema não seja a idade, mas o solo estrutural do preconceito, que germina e cria limites para nós, pessoas pretas, mulheres e de baixa renda, impedindo que tenhamos oportunidades, inclusive ao longo da vida adulta”.
Para ela, a noção de idade como barreira é uma construção social antiga e limitadora.
“Não acredito nesse pensamento de idade ideal. Em qualquer idade é possível. Durante décadas, a sociedade reforçou a ideia de que estudar tem momento certo, que faculdade é só para quem acabou de sair do ensino médio, que depois de certa idade é ‘tarde demais’. Isso não é verdade, mas é uma crença poderosa que afasta muita gente”.
A força do exemplo de Eli já provocou mudanças dentro de casa. Seu filho caçula, Elton Teodoro, 27, trilha agora o próprio caminho acadêmico e é estudante de Engenharia Química na UFBA. “Minha mãe me ajudou muito no Enem. O plano dela foi muito bem elaborado. A negona foi incrível. Ela me fez fazer o Enem desde o primeiro ano do ensino médio, isso me deu ritmo, me deixou no pique”, conta.
Elton lembra que a mãe sempre defendeu a educação como prioridade. “Ela colocava a gente em colégio bom, conversava sobre o valor do estudo, reforçava a importância da escola. Isso tudo fez diferença”.
Ele recorda ainda as inúmeras vezes em que testemunhou a dedicação da matriarca. “Eu vejo o quanto minha mãe faz para continuar presente na academia, sabe? Isso me motiva muito, porque é algo muito próximo. É diferente quando você vê alguém dentro de casa correndo atrás do próprio sonho. E são coisas que, por muito tempo, foram negadas a ela”, comenta o estudante.
O caçula também reconhece o peso das renúncias que Eli precisou fazer. “Ela não tinha condições de estudar, ainda mais cuidando de três filhos pequenos. Teve que abrir mão do que ela sempre amou. Para mim, enquanto filho, isso sempre foi muito difícil de ver”.

Na família de Cris, a fagulha provocada pela universitária acendeu outros percursos. Inspirado pela trajetória da companheira, Jurandir decidiu retomar os estudos e se prepara para concluir o ensino médio pelo programa EJA (Educação de Jovens e Adultos), em 2026.
Ele lembra que a decisão tomou forma em 2018, quando a estudante perdeu completamente a visão.
“Ali eu virei a chave. Ano que vem quero voltar, porque será o último semestre dela. Quero concluir o ensino médio e, em 2027 ou talvez 2028, fazer o Enem. A ideia é entrar na faculdade e pretendo cursar Geografia”, disse.
O movimento de Cristiane também alcançou os filhos do casal. O mais velho, Eric de Jesus, então com 22 anos, conquistou uma bolsa do Prouni (Programa Universidade para Todos) e cursou Enfermagem. Já Vitor de Jesus tornou-se chef de cozinha e hoje é reconhecido na área. Aos 30 e 28 anos, os dois vivem em Morro de São Paulo.
“Quando voltei para Salvador, meu filho mais velho se empolgou e fez o Enem. Minha irmã fez depois e disse ‘se Cristiane pode, eu também posso’. Minha sobrinha também entrou na faculdade e depois disso a cara da família começou a mudar”, recorda a estudante.
“Sinto como se eu fosse uma ponte. Alguém que ajuda as pessoas a se ativarem e perceberem que podem estar, e desejar estar, em qualquer ambiente”.
A pauta desta reportagem foi selecionada pela 7ª edição do Edital de Jornalismo de Educação da Jeduca (Associação de Jornalistas de Educação), realizado em parceria com a Fundação Itaú, cujo objetivo é fomentar a produção de conteúdo jornalístico de qualidade sobre temas relevantes da educação pública brasileira.
Conheça mais sobre a história de Eli Odara e Cristiane de Jesus
Reportagem de Bruna Rocha
Edição de Cleber Arruda e Rosana Silva
Fotografia de Jailton Souza e Bruna Rocha
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