[63] Rotina de drags periféricas
Entre o CLT e os palcos, drags queens periféricas contam como iluminam as noites de Salvador
Suzy d’Costa e Ferah Sunshine conciliam a rotina de shows com trabalhos convencionais e, juntas, já fizeram parte de um coletivo de drags negras
Entre glitters, shows e espetáculos, homens das periferias de Salvador conciliam a rotina do trabalho formal com a paixão pela arte drag. É o caso de Everton Rocha, 36 anos, que dá vida à drag queen Suzzy D´Costa. Morador do Engenho Velho de Brotas, Everton trabalha como vendedor de consórcio de segunda a sexta-feira, das 8h às 18h, e nos fins de semana até o meio-dia.
Após a jornada em horário comercial, o artista relata que inicia o cumprimento de sua agenda de shows, que envolve desde a escolha das músicas até a elaboração das coreografias. Everton relata ainda que as apresentações são, em geral, marcadas para os fins de semana.
“Eu não marco show durante a semana por causa da minha rotina no trabalho. Só aceito shows durante a semana se for muita gente, uma festa privada -que costuma ser mais curta- ou show em sauna, que geralmente dura só uma hora e começa mais cedo”, conta.
Devido à sua rotina apertada, o artista detalha que conta com a ajuda de parceiros de palco para dar vida às apresentações, que costumam ocorrer em bares da capital, geralmente com início na madrugada.
“Geralmente eu mando a coreografia para um dos meninos. Eles ensaiam, passam entre si, e depois que saio do trabalho, à noite, vou para o ensaio. A gente costuma ensaiar três vezes na semana: duas comigo e uma só entre eles. Eles me mostram como ficou, eu ajusto os detalhes, corrijo postura, organizo de lado a lado”.
“No dia do show, para mim é sempre mais difícil, porque preciso conciliar o trabalho com o horário da apresentação e, ao mesmo tempo, controlar minha mente”, recorda o transformista.
Atualmente, os eventos de Everton que dá vida a Suzzy d’Costa são baseados em dublagens coreografadas, tendo a cantora norte-americana Beyoncé como principal fonte de inspiração. Conforme apontou o artista, os shows duram entre três e quatro horas, e os cachês variam conforme o local, podendo ficar entre R$ 400 e R$ 800, dependendo do tipo de evento em que ela for contratada.
A rotina de Suzzy d’Costa assemelha-se à de Ferah Sunshine, drag queen que ganha vida através do publicitário Vagner Cerqueira, de 38 anos, morador do bairro Djalma Dutra.
Hoje, conciliando sua rotina drag com o trabalho na equipe de comunicação do Centro de Promoção e Defesa dos Direitos das Pessoas LGBTs (CPDB), o artista conta como funcionam os dias de show.
“Na semana passada fiz uma festa privada e, em seguida, apresentei uma caminhada da diversidade no bairro do Retiro. Finalizei a noite no bar Beco, no Rio Vermelho. Consegui fazer três eventos em um só sábado, mas foi cansativo. Na sexta-feira, também fiz um show no Âncora do Mário (Bar gay de Salvador), que foi até às 4h da manhã. Com isso, não consegui dormir direito, pois tinha um evento cedo no dia seguinte. Dormi às 5 da manhã e às 9 já estava de pé, me organizando para o dia”, lembra Vagner.
O artista também ressaltou a alta exigência de sua profissão e afirmou que, para respeitar seus próprios limites, tem recusado alguns convites para shows a fim de preservar a saúde. “A juventude também tem seu peso; já não sou tão jovem, e a disposição para ir e fazer tudo com rapidez nem sempre é a mesma. Cada um tem sua própria rotina e seus desafios”, observa.
VALORIZAÇÃO DA ARTE DRAG
Antes de conquistar um emprego formal, sob o regime CLT, Vagner revela que sua atuação como transformista foi fundamental para quitar as contas no início da carreira, embora tenha sido um período de dificuldades. “Não consigo precisar exatamente quanto eu ganhava, mas, enquanto vivi exclusivamente da drag, conseguia pagar o aluguel, fazer compras para casa e ainda investir na minha arte. Isso, no entanto, não significava uma vida luxuosa”, conta.
“Naquela época, eu morava em um lugar que custava R$650 e, mesmo contando cada centavo, conseguia manter as contas em dia. Eu sobrevivia, mas não tinha como me dar ao luxo de sair para tomar uma cerveja ou comprar um sapato bonito. Era uma vida de apertos, mas eu conseguia me sustentar e investir no que amo fazer”.
Na análise de Vagner, a cena artística e as apresentações drags ainda não são tão valorizadas financeiramente na Bahia. Segundo ele, anteriormente a principal motivação para montar uma drag era a paixão pela arte, sem tanto foco no retorno financeiro. No entanto, observa que, atualmente, a remuneração também passou a fazer parte do debate, havendo maior reconhecimento profissional.
Para o publicitário, a garantia de um emprego com carteira assinada representa, além de um equilíbrio financeiro, a possibilidade de investir em itens para elementos a perfomance artística. “Financeiramente falando, ter a estabilidade de um emprego CLT permite que você invista na sua arte drag, melhorando figurinos e comprando maquiagem. Quando você vive apenas da drag, acaba tendo que priorizar o pagamento do aluguel e algumas compras básicas, o que limita os recursos disponíveis para investir na sua performance”, conta o artista.
“A drag é um investimento, e figurinos, perucas e laces são itens caros. Embora muitos desses itens durem bastante, o custo inicial pode ser alto”, aponta Vagner Cerqueira.
Apesar da fluidez da rotina atual, Vagner recorda que já perdeu empregos por ser fazer drag.
“Já trabalhei em ambientes mais sérios e burocráticos, onde não havia tanta abertura para expressar essa parte de mim. Muitas vezes, evitava mencionar minha atividade como drag para não perder o serviço. Essa relação entre o trabalho e a drag sempre foi um desafio a ser gerenciado”.
Atualmente, atuando no Centro de Promoção e Defesa dos Direitos LGBT (CPDD), o publicitário realiza de sete a dez shows por mês, sempre aos fins de semana. Os eventos variam entre aniversários, DJ, apresentações abertas e espetáculos em estabelecimentos, e ele destaca que essa dinâmica é mais favorável.
“Hoje em dia, consigo conciliar minha vida social com o trabalho, pois minha profissão me oferece essa liberdade. Fui até homenageado pelo meu trabalho como drag, o que é muito gratificante”, lembra com emoção.
ONDE TUDO COMEÇOU
Vagner e Everton, figuras consolidadas da cena drag baiana, compartilham uma longa amizade marcada por inspiração mútua e apoio artístico. Everton entrou no universo drag por acaso, aos 17 anos, ao substituir uma participante ausente em um concurso e venceu. A partir daí, nasceu Suzzy d’Costa, sua persona artística, que acumula quase 20 anos de carreira e diversos títulos, como Miss Bahia Gay 2008.
“Eu sempre trabalhei com dança e teatro, pensei: 'Me maquia que eu participo, não vou deixar passar'. Entrei na competição e acabei ganhando a prova do dia e, no fim, venci o concurso”, sorrir o vendedor de consócio de veículos.
O encontro entre os dois aconteceu quando Vagner, ainda adolescente, conheceu Everton em uma festa. Na época, ele fazia parte do fã-clube da artista e se impressionou ao vê-la montada pela primeira vez. “Parecia que a Beyoncé estava na minha casa”, relembra, rindo. Segundo o artista, a admiração pela arte drag já existia, mas aquele momento marcou o início de uma relação pessoal e artística que se fortaleceria com o tempo.
A conexão cresceu e, anos depois, resultou na criação do coletivo Bonecas Negras, fundado em 2017. Inspirado na canção Bonecas Pretas, de Larissa Luz, o grupo foi formado por drags negras com o objetivo de combater o racismo, a homofobia e o machismo. Hoje, o grupo não existe mais, porém a relação construída permanece entre os artistas.
Reportagem de Bruna Rocha
Edição de Rosana Silva e Cleber Arruda
Fotografias de Bruna Rocha
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