[54] Não deixe o samba morrer
Engenho Velho, talentos novos: Mulheres +60 se reúnem para tocar pandeiro em Salvador
Grupo Pipoca com Coco se reúne semanalmente para aprender a tocar instrumento, fortalecer autoestima e buscar empoderamento
“Ponta, dedo, fundo. Ponta, dedo. Ponta, fundo”. Os versos acompanham os toques mais simples do pandeiro, ecoando ritmos, memórias, afetos e histórias. No Engenho Velho de Brotas, bairro da periferia de Salvador, o grupo Pipoca com Coco reúne, semanalmente, mais de 30 mulheres da terceira idade – acima dos 60 anos, em sua quase totalidade – para aprender a tocar o instrumento, fortalecer a autoestima e se empoderar, além de criar momentos de socialização e convivência. O som daqueles instrumentos contagia, chama para a dança, para o encontro e, acima de tudo, para a celebração da vida.
Uma das integrantes do grupo é Célia Regina de Lemos Vilela, 74. Ao se aposentar, ela decidiu realizar um sonho antigo: ‘botar o pandeiro para sambar’.
Antes das aulas, ela conta que chegou a fazer outras atividades. “Quando me aposentei, procurei um grupo para trabalhar minha memória e autoestima. Fiz teatro e participei de três peças, fiz dança afro, dança do ventre e, ainda, percussão. Mas, o pandeiro, que sempre foi meu sonho saber tocar e o que mais me identificava, pouco aparecia. Quando soube do grupo através de um amigo, entrei em contato e gostei muito da didática, da paciência e da prontidão das pessoas aqui com a gente. Me apaixonei pelo curso”, contou.
Desde então, Célia se encontrou como percussionista. “O pandeiro me fez e faz muito bem. Não tomo remédios, sou naturalista, e o pandeiro é como um remédio para mim. Saio daqui leve, sem pensar em nada, apenas na música, que amo. E me distraio completamente. As outras meninas que também estão aqui, me ajudaram muito”, contou.
Ela ressalta a importância de desacelerar e relembra do tempo em que atuava como secretária executiva e chefe de departamento pessoal. “Hoje, tenho minha vida livre para fazer o que quero e o que gosto, porque, quando trabalhava, não tinha essa liberdade”, conclui.

SURGIMENTO DO PROJETO
O projeto “Grupo Pipoca com Coco” iniciou em 2022, em formato de oficina, com cerca de dez mulheres. Atualmente, contém mais de 30 alunas, com aulas às segundas e terças, das 16h às 18h. A iniciativa é do percussionista e pesquisador Eliezer Freitas Santos, 61, o professor que retornou ao bairro após quase 50 anos morando no exterior, com o desejo de fazer algo pelo seu local de origem.
“Eu pensei: ‘Por que não criar um curso de percussão para mulheres?’ Já tinha tido experiências semelhantes nos Estados Unidos e na Argentina, onde morei. Por que não fazer um em Salvador? Existe, até hoje, o preconceito de que mulheres não podem fazer isso ou aquilo. Então, por que não tentar mostrar que esse tipo de pensamento já está ultrapassado? Quando se trata de música popular, essa ideia de que é coisa de homem, para mim, não tem nada a ver”, explica o professor.
Mesmo com o protagonismo invisibilizado, a história do samba foi marcada, por décadas, pela presença feminina. Pioneiras como Dona Ivone Lara, Clementina de Jesus, Beth Carvalho, Elza Soares e Leci Brandão abriram caminho para as novas gerações. Atualmente, Alcione, a famosa ‘Marrom’, de 77 anos, segue há mais de cinco décadas como referência nacional, mostrando que mulheres continuam a reafirmar seu espaço para “não deixar o samba morrer”.
Na Bahia, o ritmo foi fortalecido e propagado por nomes como Dona Dalva Damiana, Gal do Beco, Juliana Ribeiro, Mariene de Castro e Clécia Queiroz.
Apesar desse histórico, o professor Eliezer lembra que, no início do curso, sentiu uma certa resistência por parte das próprias mulheres às aulas, fruto de um preconceito estrutural. “Muitas perguntavam: ‘Será que consigo aprender?’. E sempre respondo: ‘Consegue, tudo que você se propõe a fazer, se você quer, você pode’”, afirma.

A integrante do grupo Ava Avacy Maria dos Santos, 67, participa do curso desde a fundação. Nunca havia tocado nenhum instrumento, mas hoje domina o pandeiro com uma variedade de músicas e de ritmos, sobretudo afro, como o samba, e ainda, o ijexá. Para ela, as aulas vão além do aprendizado musical.
“É um momento de descoberta, de desenvolver novas habilidades e as nossas potencialidades, principalmente nessa fase da vida, quando muitas acreditam que já não há mais o que fazer. Entretanto, ainda é possível se desafiar, aprender, tocar e perceber que há condições de realizar muito mais coisas”.
Outra integrante do grupo é a policial civil aposentada, Conceição Barbosa Silva, 66. Ela lembra que ‘caiu de paraquedas’ nas aulas. “Uma colega me chamou para vir e não disse o que era. Logo pensei: ‘alguma coisa ela estava aprontando’. Quando cheguei, perguntaram: ‘veio se inscrever para a aula de pandeiro?’. Pensei: ‘Pandeiro? nunca toquei isso na minha vida’. Mas já estava ali e era de graça. E de graça, até injeção na testa. Fiquei por lá mesmo. E quando a aula começou, dava cada tapa no pandeiro, que parecia até que estava praticando violência”, contou, aos risos.
Após a experiência com as aulas, a ‘carreira’ deslanchou. “A gente começou a ser convidada para tocar em condomínio, no Dique [do Tororó], na praia, nas escolas, em aniversários e somos sempre muito abraçadas. Aí você começa a perceber que aquilo não é apenas uma aula de pandeiro, mas um tratamento que faz a gente esquecer de todos os problemas”, afirmou Conceição.
A tecnóloga em gerontologia e cuidadora de idosas há mais de 20 anos, Cláudia Rosa, que morou por muitos anos no Conjunto Edgar Santos, localizado nas imediações do Engenho Velho de Brotas, ressalta que o aprendizado musical ou a musicoterapia para pessoas com idades mais avançadas pode ser uma ótima estratégia de saúde emocional e de bem-estar psicológico, reduzindo sintomas de estresse, pressão alta, alzheimer, ansiedade e depressão.
Aprender a tocar um instrumento musical na terceira idade reforça a coordenação motora, a agilidade manual e a saúde cerebral, aumentando a percepção e a coordenação entre as mãos, os olhos e a mente, além de estimular áreas relacionadas à cognição e a memória, prevenindo, também, doenças neurodegenerativas”, afirma Rosa.
A população brasileira, inclusive, está envelhecendo mais. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de pessoas com mais de 60 anos quase duplicou no Brasil entre 2000 e 2023, passando de 8,7% para 15,6%. A estimativa aponta que, em 2070, 37,8% da população será idosa, trazendo, assim, um alerta para os cuidados com o envelhecimento saudável.
Conceição, por sua vez, enfatiza que faz da própria vida um verdadeiro samba. “Se eu tiver pressão alta, coloco o samba. Se você me ver doente, me dê um pandeiro. Nem me impeça de tocar e nem me mande para a médica, porque eu não vou. Eu vou me arrumar toda, fazer unha, fazer cabelo, botar uma trança bem comprida, pegar um vestido novo e vou sair. Quando eu voltar, já esqueci que não estava bem”, diz a policial aposentada. No mais, ela está bem satisfeita com seu atual estilo de vida. “O pandeiro, hoje em dia, é a minha arma”.
Reportagem de Vagner Ferreira
Edição de Cleber Arruda
Fotografia de Bruna Rocha
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